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5 de abr de 2008

Anotações

Marina Colassanti

Eu sei, mas não devia


Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perde o tempo da viagem.... A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números pra os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber....
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

(texto resumido e modificado por JuGioli)
ilustração: Safo

10 comentários:

Fernando Zanforlin disse...

...me acostumei a não me acostumar com nada,
mas de costume me espanto como costumo pensar que sempre estou mudando.
bjs,

Sonia disse...

A FAMILIARIDADE CEGA! Esta é uma frase que foi uma revelação para mim e que está bem próxima da idéia deste texto que você escolheu. Esta frase está no livro - "Auto-Engano" - de um autor que gosto muito e que tem sido minha leitura constante, Eduardo Giannetti.

Li muito Marina Colassanti na década de 70/80... mas não tenho ouvido falar muito dela ultimamente... Achei ótimo reler este texto!

Beijos!

GUGA ALAYON disse...

Nunca aposte
Num costume
Nem em póstumas
Costumizations

Eduardo P.L. disse...

Ótimo texto, modificado e resumido!

Bjs e bom Domingo.

Tygogal disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Maria Augusta disse...

É importante não se acostumar com as limitações, pois elas nos impedem de viver plenamente. Belíssimo texto cheio de sabedoria.
Um grande beijo.

disse...

O que seríamos sem as palavras!...lindo e sábio texto...lindamente modificado por vc ...Beijos

alice disse...

gostei muito deste texto, tão humano e verdadeiro. de facto, o coração gasta-se! agradeço também a sua visita e interesse no meu livro. informo que o mesmo só estará disponível em maio. um grande abraço além atlântico ;)

JG disse...

Taciturnidade é uma palavra com uma carga de tristeza muito grande.
Mas é como se fica ao ler este texto: taciturno e mudo.
E não devia.

Anny disse...

Marina Colasanti. Adoro ela. Escreve para nos acordar...

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